O debate presidencial exibido pela TV Band deixou no ar uma incômoda e conhecida sensação de enfado. Não por falta de acusações de lado a lado ou pela ausência de retórica inflamada — ingredientes fartos em qualquer embate televisivo —, mas pela contundente distância entre o circo eleitoral e o Brasil real.
Ao final da transmissão, restou escancarado o diagnóstico de uma classe política que prefere alimentar paixões partidárias a enfrentar as carências estruturais do país. Em especial, dois pilares vitais para o futuro da nação foram intencionalmente soterrados pelo populismo: a segurança pública efetiva e a educação transformadora.
1. Segurança Pública de Fachada: Armas na Mão e Olhos Fechados para a Milícia
No campo da segurança, o debate expôs com clareza a fragilidade teórica e a demagogia do discurso de extrema direita. A insistência na pauta do armamento da população como panaceia e a defesa restrita do confronto ostensivo em favelas operam como fórmulas prontas de palanque, mas ignoram a mecânica moderna do crime organizado.
O verdadeiro desafio da segurança nacional não será resolvido com a distribuição de armas a civis ou com operações pirotécnicas. Trata-se, acima de tudo, de asfixiar o financiamento do crime e combater as estruturas paralelas de poder.
O silêncio que incomoda
Por que a erradicação das milícias passa ao largo dos programas de governo da extrema direita? Falamos de organizações criminosas que loteiam territórios inteiros, impõem taxas extorsivas sobre a venda de água, gás e internet, monopolizam o transporte alternativo e controlam a vida de milhões de cidadãos.
Ao canalizar o foco exclusivamente para a retórica bélica no asfalto, o discurso político ignora — seja por conveniência eleitoral ou por cumplicidade tácita — o poder silencioso que sufoca o cotidiano de quem vive sob o domínio miliciano no Brasil.
2. O Apagão da Educação: Como Discutir o Futuro Ignorando o Professor?
Se a segurança foi tratada sob o prisma da ilusão, a educação pública amargou o descaso do esquecimento absoluto. Não há hipótese de o Brasil alcançar desenvolvimento econômico, soberania tecnológica ou justiça social sem um investimento maciço, continuado e inequívoco na valorização docente.
É ingenuidade cobrar índices internacionais de aprendizagem enquanto a estrutura escolar nacional continuar operando sob a lógica do improviso e do esgotamento profissional. Uma reforma educacional séria exige o enfrentamento de pautas concretas:
- Teto de alunos por sala de aula: medida indispensável para garantir um ambiente saudável de aprendizado e a atenção individualizada ao estudante. E tenho uma resposta para esse teto, mas essa análise eu deixo para um próximo post.
- Jornada de trabalho na proporção 1 para 1: assegurar que a cada hora de aula ministrada corresponda uma hora dedicada exclusivamente ao planejamento pedagógico, avaliação e formação continuada.
- Piso salarial e plano de carreira dignos: editais de concursos estaduais e municipais continuam fixando a remuneração inicial para 40 horas semanais no piso nacional (pouco acima de R$ 5 mil) — um valor incompatível com o custo de vida nas grandes metrópoles, onde se concentra a maior parcela dos estudantes do país.
A Polarização como Cortina de Fumaça
Ao reduzirem a segurança pública a um show de bravatas e relegarem a educação ao limbo das propostas, os candidatos reafirmam a grande deficiência dos nossos representantes.
Em vez de lidarem com as dores reais da população, as lideranças preferem instrumentalizar a polarização. A disputa de torcidas tornou-se a cortina de fumaça perfeita para esconder a escassez de ideias e tirar a atenção do cidadão sobre o que é verdadeiramente vital. Enquanto a política for alimentada pelo espetáculo do confronto, o Brasil continuará refém da violência e distante do desenvolvimento.

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