Hoje pela manhã, ao ligar a televisão para acompanhar o noticiário local aqui em Santa Catarina, deparei-me com uma cena que tem se tornado cada vez mais comum, mas não menos inquietante. O que deveria ser um momento de serviço público, informação e cidadania transformou-se em um palco de entretenimento raso.
A migração do formato Hard News (notícias sérias, factuais) para o Infotainment (informação + entretenimento) não é um fenômeno novo, mas a dose parece ter passado do ponto. O que assistimos não é mais o relato da realidade, mas uma performance onde a notícia é apenas um acessório para o ego de quem a apresenta.
A Concessão Pública e o Dever Constitucional
Antes de entrar na crítica estética, precisamos lembrar da base legal. No Brasil, canais de televisão aberta não são propriedade privada absoluta; são Concessões Públicas. O espectro eletromagnético pertence ao Estado (ou seja, à sociedade).
A Constituição Federal de 1988, em seu Artigo 221, estabelece que a produção e a programação das emissoras de rádio e televisão devem atender a princípios como a "preferência a finalidades educativas, artísticas, culturais e informativas".
Quando uma emissora utiliza uma hora preciosa dessa concessão para exibir dancinhas, piadas internas entre apresentadores e uma linguagem infantilizada, ela está, no mínimo, subutilizando um recurso público valioso que deveria servir para educar e informar a população.
A Crítica: Onde foi parar a Seriedade?
A análise do cenário atual do telejornalismo matinal, especialmente o local, revela três sintomas graves de uma crise de identidade:
* O Repórter como Protagonista: A notícia perdeu a relevância. O foco agora é o carisma do repórter, a roupa que ele veste, ou a interação "engraçadinha" com o estúdio. Vemos repórteres mandando beijos, fazendo coreografias e agindo como animadores de auditório. O jornalismo, que deveria ser o fiscal do poder e o narrador da história cotidiana, vira um reality show de vaidades.
* A Infantilização da Linguagem: O uso excessivo de gírias, a informalidade forçada e a tentativa desesperada de se conectar com um público jovem (que, ironicamente, nem assiste mais TV aberta) criam um ruído. A credibilidade, moeda mais valiosa do jornalismo, é diluída em meio a uma comunicação que soa juvenil e pouco profissional.
* A Enrolação do Tempo: Pautas irrelevantes são esticadas à exaustão. A previsão do tempo, por exemplo, que poderia ser dada em 2 minutos com dados técnicos e objetivos, vira um quadro de 15 minutos de especulação e conversas triviais. Isso é um desperdício do tempo do espectador que busca informação para começar o dia.
Não se trata de exigir um jornalismo robótico ou sisudo como nas décadas passadas. A leveza é bem-vinda. Porém, há uma linha tênue entre ser leve e ser irrelevante.
Quando o entretenimento engole a informação, a sociedade perde. Perdemos o espaço de denúncia, perdemos a profundidade da análise local e perdemos a oportunidade de usar a TV aberta como ferramenta de desenvolvimento cidadão. O jornalismo local precisa decidir se quer informar a comunidade ou apenas diverti-la enquanto a realidade passa despercebida lá fora.
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